Visita presencial

Entrada gratuita

SEG - SEX  12h - 17h

Experiência em realidade virtual

Acesso gratuito

Ao encontro de reúne imagens que reforçam a natureza complexa de diálogos solitários. Ecoam, em alguma medida, a questão elaborada por Virginia Woolf sobre o sujeito em conversa consigo: “mas quando o eu fala com o eu, quem é que fala?” Antes de responderem à questão, as imagens parecem ocupadas em tratar a necessidade de fragmentar as partes que compõem cada indivíduo para que vozes plurais possam emergir, falar, silenciar ou conversar umas com as outras. De fato, entre as centenas de pessoas que figuram na exposição, algumas poucas se relacionam: a mãe e o seu filho de colo, idosos sentados em um banco de praça à espera de outro pôr do sol, o pequeno grupo de jovens a criar barricadas, duas mulheres que cruzam o campo visual de uma senhora que observa o tempo acelerado a sua volta, dois rapazes abraçados a contemplar o mundo pela tela de um celular, crianças que brincam como se possuíssem asas – algumas prestes a alçar voo. Ou, ainda, um grupo de manifestantes que lutam contra a discriminação e a ascensão de tiranias autoritárias. Estes parecem estar em busca de recuperar seu direito de voar, ainda preservado no grupo de crianças.

Entre a massiva quantidade de figuras isoladas, há um corpo a corpo possível com quem visita a exposição, por meio do qual a sucessão de instantes complementares gera um painel de sensações vulneráveis, líricas, festivas, corriqueiras e duvidosas. É neste contexto que Carol aproxima-se de Cleide, esta de Maia, Ayra, Tito, Bertha, Samuel, Ligia, Douglas, Malia e Rafa. Trata-se de corpos e existências separados por oceanos e continentes, situados na assembleia montada em Uberlândia. De fato, as ruas de diferentes partes do mundo são acolhidas na cidade natal do artista, em uma edificação que reflete o desejo da arquitetura condenada ao pensamento que a entende como extensão do espaço público. O vão que acolhe as ficções da exposição contém a rua e seus caminhantes, estranhezas, pausas e lutas, situados em territórios estrangeiros e no quarteirão ao lado. Com isso tudo em jogo, o embate com cada figura convida a imaginação a gerar narrativas alheias às imagens, capazes de transformar biografias suspensas, dependentes do outro para se reinventar.

Outro dado importante em Ao encontro de diz respeito ao fato de o

projeto tomar emprestada a expressão idiomática comumente empregada de maneira desajeitada em nosso país. Ao explorar a confusão de verbos como aproximar e colidir, a exposição enfatiza a fragmentação do si mesmo para ocasionar encontros individuais profícuos que poderão reformular experiências comunitárias. Isso porque a confusão no uso das expressões ao encontro de e de encontro a é via de mão dupla na exposição. É o corte da paisagem que permite o ir e fornece o caminho de volta ao mesmo tempo. Que entende o ato fotográfico como expressão de intimidades atravessadas por espaços públicos. Por isso a importância da ambiguidade contida no maço de flores na mão de um senhor que caminha, na indignação escrita nas palmas das mãos de uma jovem mulher, no estado contemplativo de monges e na leitura de Tereza no vagão de trem.

Em tempos de isolamento social decorrente de ameaça à vida em cada canto do planeta, ir ao encontro da alteridade requer uma série de medidas em vista de conter contágios que transformaram o outro em

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figura fragilizada pelo invisível. Daí considerar o projeto Ao encontro de como a testemunha de existências que revertem leituras fornecidas à primeira vista pela imagem. Como se estivesse em jogo o exercício de considerar outras narrativas para figuras que portam máscaras, para o olhar curioso da menina, ou para a leitura atenta de Tereza, sentada em um vagão de trem enquanto aguarda chegar à estação na qual deverá desembarcar. Sua consulta ao jornal encontrado em seu assento – provavelmente deixado por algum viajante que esteve ali antes dela – revela imagens que lhe fornecem memórias de uma parte de si, perdida em algum canto de sua memória. Enquanto levanta os olhos para identificar o avançar da viagem, outra parte de si é levada à infância vivida em um povoado no interior de outro país, com cultura e idioma diferentes daquele adotado no começo de sua juventude. Aproximar a captura de instantes de pessoas em movimento e suscitar leituras inventivas, com enredos para cada figura fazem da exposição um campo aberto à partilha de experiências que definem pessoas como organismos sensíveis envoltos em coragem, fragilidade, terror e esperança.

Josué Mattos

#AOENCONTRODE
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